INTRODUÇÃO 1: COISA DE REVISTA ELETRÔNICA
Meu professor e conselheiro e fã do Ira! (a frase não acabou nesta exclamação), o Sr. Mendes (o verbo “mend”, nos exteriores aí, significa “consertar”, o que cai bem aqui), bem, se esses parênteses me deixarem completar esta sentença, o Sr. Mendes lançou um desafio ao gorila aqui: “Faça um texto sem editá-lo”. Essa ideia NESTE texto é válida, porque, não aparentemente, vou culminar esta resenha quádrupla, de quatro LPs, na filosofia do D.I.Y. (Crie Você Mesmo), que implica falta de carinho com a arte, a fim de que essa arte seja como nós: não “defeituosos”, mas “com defeitos”. Há diferença.

Vou começar falando de algo comercial. Depois vou odiar a indústria, e você, querido leitor, vai concordar comigo (espero eu).

SINOPSE 1: PINGUE-PONGUE
A expressão “Let it be” significa algo como “Deixe as coisas ficarem como estão”. Isso é conformismo ou desprezo ou os dois ao mesmo tempo. Examinar essa expressão, portanto, é navegar numa contradição. A palavra ‘polêmica’, se traduzida para o inglês, vira “contradiction”—perceba a semelhança! A ambivalência da frase “Let it be” servirá, ao longo deste texto, como o visto pingue-pongue revelador que há entre as línguas portuga e inglesa: descobriremos a polêmica como se descobre um pirralho que não quer sair da cama para ir à escola. Nada de superfície: e se tiveres que nadar sobre a superfície, será uma caminhada. Se não sob (= underground), será sobre o natural (o nu e cru e humano).

COISA DE REVISTA ELETRÔNICA- PARTE 2:
PINÓQUIO DE CERA (DE NARIZ E CORPO E ALMA)
O disco da banda punk The Replacements (“Os Substitutos”) que tem “Let it Be” como título, faz parte de uma sucessão de conformismos e desprezos, a qual culminou na horrenda calmaria contemporânea em que se encontra o estilo musical chamado pelos brazucas de “roque”. Este parágrafo está aqui um pouco muito cedo, porque partiremos numa odisseia até esses Substitutos. Se esta resenha fosse um filme épico da era de ouro da MGM, esta presente parte seria uma mera sinopse. E pra quem cola em vestibulares, seria um resumo “portátil”. ‘-Tátil’ porque ficaria/caberia na palma da mão. E ‘por’ porque, po**, a porca ria na França e a porcaria no Rio Grande. Não precisa entender isso. São só dois sons do mesmo erre, de ‘ria’. Quero mesmo que você erre, e chore, caso cole no vestiba. Mas pode colar aqui, com seu gorila favorito, na estreia da Gorila FM, sem piadinhas sem graça. A macaquice é por conta da casa, onde quer que seja o local onde estás lendo isto.

Pois BEM.

Em 1970 foi lançado o disco final dos Beatles, cujo nome era essa expressão com “Let” também. Mas, vejamos bem, esse LP foi gravado em 1969, naquele famoso show surpresa “no topo de um prédio”. O projeto inicialmente tinha o nome de “Get Back” (“Volte”), porque era uma tentativa de os garotos de Liverpool voltarem à raiz de sua música: nada de excessos/efeitos psicodélicos no som: apenas guitarra, baixo, bateria, piano e vocal. Foi uma boa ideia, pois eles nos conquistaram com “I Wanna Hold Your Hand” (1963) com essa simplicidade. Por que não voltar a ela?

John Lennon, o único Beatle com espírito “punk” (você vai ouvir muito desse adjetivo neste texto), detestou essa iniciativa. Dou razão a ele. As canções foram demasiadamente simples. Eles até que buscaram um pouco de humor, mas, em um material de baixa qualidade, parece cinismo incluir-se uma faixa que dura apenas segundos, a “Dig it”, com letra que mais se assemelha a uma lista do que fazia sucesso na época, de Doris Day a B.B. King.

Isso soa como uma ofensa a um ouvinte que queria um grand finale para a carreira do quarteto e, um pouco depois da faixa principal do disco, o receptor ainda se depararia com outra aparente chacota, a música “Maggie Mae”. O problema de “Maggie” não são seus meros 41 segundos de duração, mas o fato de que é gritantemente similar ao sucesso de Bob Dylan “Maggie’s Farm” (1965), porém com falta de fôlego e sem paciência para sua execução.

É claro que esse projeto da banda de Lennon e McCartney tem clássicos como a abertura “Two of Us”, com destaque à sua harmonia vocal; “Across the Universe”, em que a instrumentalização indiana de George Harrison e as letras abstratas de Lennon remetem ao clássico “Revolver” (1966); e a proto-grunge “I’ve Got a Feeling”, cuja acidez é logo suavizada pelos versos que Lennon canta gentilmente, fazendo turnos com os gritos climáticos de Paul. Sim, citei três faixas boas. Mas lembremo-nos de que o LP tem doze.

“For You Blue”, “Get Back”, “I Me Mine”, “One After 909” e “Dig a Pony” representam a filosofia do título provisório “Get Back” (“Volte”): são os Beatles fazendo blues de branco, ou blues de olhos azuis: ou, melhor dizendo, blues-rock, que não é blues-raiz, mas é rock-raiz. (Ufa!) O problema é que os Rolling Stones já faziam isso, mas com bile na língua e falta de disciplina da dar inveja em qualquer observador das leis do jazz ou da música clássica.

“Os Beatles dando uma de Stones” não cola. Pelo menos as letras de “Dig a Pony”, também do excêntrico Lennon, retorcem o fator mundano da canção. Mas estas continuam sendo o grupo insípido das faixas do disco.

Agora, abram seus hinários: John e Paul, “S. João e S. Paulo”, quiseram deixar duas faixas para a posteridade. Era fim de carreira. Era época de “Hey Jude”. Por que não fazer mais hinos? O disco não era para se chamar de “Get Back”, concluíram os Beatles, já que não era um retorno ao rock’n’roll com “roll”, com energia cinética. Era um produto sem graça. “Já sei”, sugeri EU ao quarteto. “Façam uma música bem comercial, meio que de igreja, para agradar a gregos e troianos e católicos, de forma bem ‘segura’ (no sentido de ‘sufocada’), e façam com que o nome do álbum seja o mesmo dessa faixa. Isso porque o pessoal vai querer comprar as 12 faixas só por causa dela”. Os Beatles me ouviram, e assim compuseram “Let It Be”.

Um ano após se separarem, resolveram lançar o LP “Get Back” —aquele disco do qual eles não tinham muito orgulho— sob o nome de…”Let…It…Be”.

Mas eu me esqueci de uma faixa: a “The Long and Winding Road”. Droga, encontrei MAIS um problema com esse disco: a Parede de Som, que, pra resumir para o leitor, funciona da seguinte maneira. Se a sua música é “sabão de coco”, está sem emoção nenhuma, e você quer que ela refulja & tenha grandeur de “opus” (que palavras finas!), de ópera, trago uma solução logo de imediato: faça uma Parede de Som, um fundo orquestrado e pomposo que dê um trato cinco-estrelas e Sinatrense ao que a banda de rock resolver gravar.

No início dos anos 2000, quando foi lançado o álbum “Let It Be…Naked”, (‘naked’ de nu), a ideia foi de reapresentar o disco, de forma desnudada de toda sua parede de som. Resultado: “Winding Road” provou-se intrinsecamente blasé; “Across the Universe” perdeu seu poder de nos transportar numa viagem pelo cosmos; “I Me Mine” ficou mais anódina ainda…Sim, foi a prova final, 33 anos após seu lançamento, de que o LP não poderia pertencer ao majestoso catálogo do quarteto. Era uma sobra, e nada mais. Nas palavras de Lennon —e não minhas— era a parede de som que salvava o material. Ele estava certo e errado, pois, mesmo com a orquestra, “Let It Be” decepciona.

Mas a década de 1970 não era pra ser dos Beatles mesmo.

Vamos à parte dois desta saga. Vamos a um equivalente: “Let it be” é quase o mesmo que “Never mind”, pois os dois expressam aquela mesma bipolar “conformidade/desprezo” de que falei. Se o Let It Be dos Beatles foi mais para o lado da conformidade artística (e do desprezo pelos fãs), em 1977, também na Inglaterra, emergiu o “Never Mind the Bollocks: Here’s the Sex Pistols”. Eu só não vou traduzir esse título pra vocês porque é uma avalanche de palavrões. Esse “Never Mind”, no entanto, é um ávido “desprezo pela conformidade”: um significado assim faria a quase sinônima expressão “Let it be” implodir, pois desprezaria sua própria composição, extrairia um próton de seu núcleo. Eu pus negrito na palavra errada. Era pra ser em “núcleo”.

Enquanto os Ramones, em 1976, inauguraram o punk rock de forma dançante e até sensível para com as garotas, os Sex Pistols mostraram que o niilismo, a arrogância, e a (auto-)destruição dadaísta eram a direção da nova música.

Indeciso 1: “Deixe estar como está.”

Indeciso 2: “Como está?”

Indeciso 1: “Deixa pra lá.”

Indeciso 2: “Então não deixe como está!”

Eis o significado do novo Let It Be: um Never Mind (“Deixa pra lá”), que, de tão bélico, mais parecia o conceito dos Rolling Stones, no álbum de 1969 chamado “Let It Bleed” (Deixe sangrar).

Nesse “Never Mind” dos Sex Pistols, a Rainha da Inglaterra é chamada de fascista numa canção que clama para que Deus a salve (talvez de si mesma), e, logo na primeira faixa, as palavras iniciais são “Tirando férias às custas da miséria de outrem?!”—mais um ataque à Família Real. O pior (melhor!) é que foi um estouro nas paradas. “Ir” era o que o público queria, e não “voltar” como os Beatles.

A resenha de “Never Mind The Bollocks”, entretanto, para por aqui, pois só servirá como escadinha e contexto para o disco principal desta resenha quase-quádrupla e informe.

CAPÍTULO DOIS: “1984”

Os orwellianos de plantão estavam certos sobre o ano da distopia, quase um fim de mundo contínuo e sem um fim, sem um propósito. Assim como o romance “1984” não merecia o status de clássico, por ser derivado de uma obra underground da literatura russa, o “Let It Be” dos Beatles não tem méritos suficientes para ser mais conhecido que uma obra underground de mesmo nome, lançada em 1984.

Façamos assim:

-peguemos o significado da expressão que denota “conformidade ou desprezo” em 1970, cuja palavra “Let” (deixe), sozinha, a traduz ideologicamente;

-depois façamos o zag para o zig acima, ao pegarmos a expressão de seu significado (“Never mind”), que faz o “Let” dar um tiro no próprio pé com o “desprezo pela conformidade” na era do punk—fiquemos, então, com a palavra “It”, pronome designado para bestas e coisas e “coisas-e-coisas” como sentimentos, para traduzir por si só a ideologia deste “deixe as coisas como estão”;

-e cheguemos neste ponto, em que a expressão se inverte toda (“Be It-let” = “Seja uma coisícula” = “Seja difícil de se notar/encontrar”): o “Be”(o ser), o ser vivo que é um “It” por ser animalesco; uma criatura que, por ser “-esco”, é uma versão inferior desse ser e dessa vida e dessa ferocidade, como uma palavra que tem o diminutivo “-let” como sufixo: esse é o espírito da banda de párias estadunidenses The Replacements, que nunca serão os maiorais. Mas este texto é território deles, então vamos ao que interessa: o folclore verdadeiro sobre esses loucos. Em 1984, eles lançaram um LP que é homônimo ao chocho disco de Lennon e Cia.—a motivação foi satirizar o quarteto britânico.

A outra motivação, que os Replacements me contaram em segredo, foi que eles tinham um conjunto de faixas melhor que a da totêmica banda inglesa (vou completar esta afirmação). E eles, portanto, arrogantes e “deixando estar”, queriam ser lembrados por terem podido desafiar “qualquer álbum da discografia beatle”.

Sim, trata-se de subversão e evolução em seus melhores sentidos. Trata-se de deixar de idolatrar coisas do passado, ao trazê-las à luz do futuro para que suas rugas sejam expostas. Isso é “prezar pelo desprezo à Idade da Conformidade”, que foi a década de 1980.

Essa década, musicalmente, foi a pior e a melhor do século XX: a cultura de massa que a infestou, e dominou, dava vontade de vomitar; mas seu submundo estava tão rico artisticamente que produziu alguns dos mais inovadores álbuns da história. A escória que poluía a FM e as nossas mentes era feita de “talentos” como Poison, Skid Row, Motley Crue, Phil Collins, Bon Jovi, Whitesnake, Van Halen, Elton John…a lista não acaba mais, mas, veja, era só isso que aparecia nas rádios. Era isso que fazia milhões girarem na “indústria”.

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Entretanto, ENTENDA: o underground, o submundo da música na década de 1980, foi uma espécie de Renascimento Cultural, aquele de Da Vinci e Michelangelo, que “raspou” na Inglaterra e nos trouxe William Shakespeare. É preciso entender esse submundo antes que eu possa falar diretamente sobre o disco dos Replacements (carinhosamente chamados de “Mats”).

Sem enrolação: o “Let it Be” de 1984, dos Mats, do underground, é um dos melhores discos de toda a biblioteca do rock. Esse álbum das “garagens de dentro dos esgotos” tem algo que o rock das massas não tinha: um som humano. O som cru, de membros da banda conversando entre eles, do piano rangendo suavemente, dos vocais não sintetizados e não duplicados. Nada de parede de som orquestrado. Tudo ‘au natural.’  Nada de computadores na gravação. Nada de consertar o que saiu desafinado. Nada de editar este texto. É mais que “ao vivo”: é “vivo”, cara! ISSO é música, e isso é rock’n’roll.

O único cover do disco, a canção “Black Diamond”, emprestada pela banda de glam-metal Kiss, tem um propósito de estar ali. Antes dela, vem uma música intitulada “Androgynous”. A banda Kiss é andrógena em sua essência…e superfície. Esta faixa é uma ótima maneira de se fazer um prelúdio para uma composição dos roqueiros dos rostos pintados, não apenas pelo título, mas principalmente pela letra, a qual vou abordar daqui a pouco.

“Androgynous” é uma gloriosa balada que conta só com um piano e vocais. Ouve-se tudo, cada parte do piano emitindo seu som, muitas vezes sutilmente dissonante com a canção. Mas o incrível é que ela chega a um clímax volumoso sem a ajuda de sinfonias. Tudo artesanal. Tudo artístico.

Como sugere o título da canção, a letra é sobre um casal de jovens apaixonados que se transvestem, mas de forma “cool”, nada exorbitante ou homossexual. Eles continuam felizes com o sexo e gênero com que nasceram, mas o garoto veste saia, e ela usa roupas de homem, só pra debochar de preconceitos e conceitos formulados pela sociedade. Eles não dão a mínima para o que pensarão deles, e, assim, “deixam estar como está,” como no nome do disco que permeia esta resenha colossal.

“Diamond” é uma metonímia para o conjunto das faixas: os Mats pegaram uma faixa de glam-metal—gênero que se orgulha no aspecto circense de seus shows e na perfeição técnica de seus solos de guitarra—e deram-lhe, mais uma vez, um som de garagem. Mas porque é uma “metonímia”? É porque o que se faz nessa faixa, de dar um tom desleixado e suburbano a coisas ‘altas’ ou ‘intocáveis’, se repete ao longo de todo o LP. Uma faixa representa o modo de funcionamento do todo.

Há backing vocals desafinados, como num dos melhores discos de Neil Young, logo na introdução. O vocal é a perfeita personificação do protagonista narrado na letra da música. A letra é sobre um cara que, embora tenha virtudes como determinação, sofre em sua luta pra vencer na vida. Há algo mais humano que isso? Assim, o vocal é inconstante, —ora incisivo, ora incerto— dinâmica seguida pelo guitarrista, que esconde o talento por uns segundos, e depois se mostra um monstro de virtuosismo. Entende isso, leitor?

São altos e baixos, montanhas-russas: a vida! Dias de insegurança e dias de surto, seja de alegria, seja de pavor.

“Gary’s Got a Boner” é outra subversão do glam-metal (transformando-o em puro punk), além de ser o Yang para o Yin de “Sixteen Blue”. A última, com melodia impecável, narra uma estória de um jovem sensível, numa idade (16 anos) em que deseja agir como um adulto mas tem a infelicidade de se deparar com a incompreensão dos pais. Já a primeira faixa citada, a “Boner”, mostra um jovem que está é curtindo a juventude, loucamente e promiscuamente.

A performance de “Sixteen” é outra parte que mostra como funciona o todo do álbum. É extremamente raro ouvir um vocalista capturar a essência do termo alemão “angst”, que é usado para caracterizar a “nitroglicerina emotiva” típica do jovem ou adolescente. “Angst” é a linha tênue entre “emo” e “acrimonioso”. Em outra não-palavra, essa fina linha é a barra no termo “L/acrimonioso”. Em outras palavras, “é barra”, algo duro de se expressar sem se parecer com um bebê chorão. O vocalista consegue transmitir essas nuances que só a verdadeira arte é capaz de expressar.

A “Unsatisfied” atinge o mesmo nível tour-de-force de “Sixteen”, e, vou descrevê-la brevemente, dá arrepios ouvi-la quando estamos numa situação difícil da vida, ASSIM como os pelos da nuca eriçam quando ouvimos o Paul McCartney cantando “For No One” (1966) logo que desfazemos um relacionamento amoroso. Achou que eu não gostava de Beatles? Eu só estou aqui porque eu queria que o “Let It Be” deles fosse este. Mas que bom que não foi! É porque, senão, a história do rock seria previsível demais. Viva ao underground, mais uma vez!

“Favorite Thing”, “We’re Coming Out” e “Tommy Gets His Tonsils Out” são três faixas consecutivas, logo no início do disco, que têm um único propósito: injetar, em três doses, adrenalina. No ouvinte. O único disco que consegue esse efeito em um ser humano, com tal fluência, é o “Funhouse” (1970) dos Stooges, outro que pouquíssimos conhecem. Eu parti da ideia de que, se isso me encheu de adrenalina, sendo eu um pobre gorila cheio de acne no rosto, isso excitará o exuberante e perfumado leitor também.

A ideia de existir um submundo brilhante, seja na década de 80 ou agora, está no princípio da autoeducação: os professores são guias, mas temos que escavar com nossas próprias enxadas e googles. E, sim, antes que me apedrejem por ter falado que o 1984 de George Orwell é derivado, quero me retratar ao tirar uma foto da parte em que eu terei dito que o Orwell é uma cópia de carbono, um espertalhão que todos conhecem, e que ofuscou uma obra russa, a original. Procurem por ela no Google ou na História (Completa) da Literatura. Mas qual a moral de eu falar isso, de literatura? É que o underground é onde a arte está, mas só leva a pior, ao influenciar outros caras, os quais farão cópias, emulações, ganharão muito dinheiro, e serão lembrados exclusivamente. A não ser que eu venha até você, leitor, e te mostre coisas como “qual é o verdadeiro ‘Let it Be.’” Não deixe que eu seja quem o mostrará a você. Escave!

O começo e o fim de um relacionamento amoroso desequilibrado são o começo e fim desse disco dos Mats. “I Will Dare” não é apenas a faixa que abre o álbum, mas também o único single que o conjunto da obra rendeu. Talvez por falta de dinheiro. “Dare” é divertidíssima pelas antíteses que o cantor coloca entre ele e sua suposta namorada. Há auto-depreciação por parte dele, como “Quão inteligente é você? E quão burro sou eu?”, contrastes que ele também usa para as idades dos dois, por exemplo.

“I Will Dare”, no entanto, por se parecer muito com “aquela canção que vai ser um single”, funciona como um mero lacre, o qual, quando removido, abre as jaulas de animais agressivos, raivosos…mas racionais. Aí o perigo é maior. Aí a ARTE é maior.

Para fechar o disco, “Answering Machine” (Secretária Eletrônica) mostra aquele término de relacionamento do qual falei. O cantor diz, “falar com a tua secretária eletrônica é como tentar libertar um escravo de sua própria ignorância; é como tentar ensinar a uma prostituta o significado de ‘romance’”.

O mais incrível é que “Machine” não tem bateria no fundo, nem baixo, absolutamente nada além do vocal e da guitarra suja e distorcida fazendo riffs como se houvesse uma banda inteira acompanhando-a. Digo-lhes que funciona, nunca na teoria, mas definitivamente na prática. Viva às improbabilidades e riscos! “Machine” é como tentar fazer com que o ouvinte tenha “intimidadora intimidade com uma guitarra elétrica” ao invés da usual intimidade com o Grand Piano do pop. S-U-B-V-E-R-S-Ã-O.

A única faixa da qual não falei é a “Seen Your Video”, porque não vou falar, nem agora. Só agora, depois que se passaram alguns segundos de que falei que não iria falar sobre a faixa naquela hora. “Video” é assim, igual a este parágrafo: ela não sabe o que vai ser: primeiramente desiste, e depois resolve, mas nem assim resolve. Trata-se de uma faixa instrumental cuja segunda guitarra, aquela que toca só notas únicas, sem acordes, faz o papel do cantor.

Por um breve momento, o cantor dos Mats está fora da banda, e, no lugar dele, entra um segundo guitarrista…que não canta. Porém, no finalzinho da faixa, o vocalista faz as pazes com a banda e consegue soltar uns berros na última estrofe. Eu disse “estrofe”? Sim. É que, para mim, a segunda guitarra tinha substituído o vocal, com louvor. O nome da banda não é The Replacements, Os Substitutos? Estava na hora de ‘acontecer uma metalinguagem’ com esse nome da banda. E aconteceu. E eu já disse que “Seen Your Video” é viciante?

Sete anos após o ‘lançamento’ desse disco dos Mats—lançado como aqueles cd’s que o Hellraiser pregava nas carnes de suas vítimas em seu filme bê de terror—veio uma banda chamada Nirvana, também desse submundo, e lançou um LP chamado “Nevermind”, expressão que, como o leitor já sabe, tem quase o mesmo significado de “Let it be”. Vocês se lembram?

Dos Beatles passamos pelos Sex Pistols, depois pelos Replacements, agora pela erupção do underground. Toda a lava do submundo foi lançada à superfície. O álbum do Nirvana, de 1991, venderia 30 milhões de cópias pelo mundo afora. O único reduto, ou gasoduto, da ARTE estava ameaçado. Escancarado. Mas o underground é tímido e antissocial. Não é um executivo bem sucedido ou um galã popular. É tímido. Ele se autodestruiu na face do mundo dos negócios. Depois voltou, engatinhando como alma penada sem asas e depenada, para dentro do vulcão. Para o subsolo.

Estamos em 2017, quase 30 anos depois do último desses deixe-estar-como-estar. O que se pode aprender em uma resenha quase-quádrupla, cheia de hipóteses e História de boca-em-boca é que:

a- Uma expressão pode ter dois significados; (óbvio!)

b- Duas expressões podem ter o mesmo significado. (óbvio de novo!)

(Eu sei que é óbvio, mas também sei o que estou fazendo aqui! Dê-me só mais um minuto.)
Em questão de convergência/divergência, veja que na “a” fiz um V (os percursos de dois significados que partem de uma mesma origem, que é a ponta do vê); e na “b” fiz um “/\”, que são os trajetos de duas expressões que terminam se encontrando no topo da letra. A ponta desse V, ligada à ponta do /\, em sucessões alternantes, forma uma coluna de vários X conectados.

X
X
X
X
X
(…)

Tá certo que não consegui colar um X embaixo do outro, mas quero que você mentalize-os colados. Depois torça-os de lado, como se fossem hélices, e preencha-os, como se cada /\ fosse mais parecido com “A”. Torça pra que essas hélices funcionem a todo vapor, de torcida & retorcida.

Pra quê isso?

Esse é o DNA do underground, que na verdade não é um DNA, mas uma perfuratriz-de-chão em movimento, que é o DNA do underground. Muitos ‘procurandeiros’ procuram ser doutores na arte de achar. Mas só dá pra ser doutor em alguma arte se a pro-cura for anti-cura, para nunca querer achar, para sempre estar na certeza, na certeza de que se está procurando, incessantemente.

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comentários

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns ao André Cabral pela coluna Rádio Gorila FM, publicação de 10/08, sobretudo pela profundidade com que tratou acerca de composições de bandas de renome, indo “ao cerne da questão” em suas críticas.

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